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Os Gêneros Supremos e o entrelaçamento das Ideias no Sofista de Platão

Filosofia

Em O Sofista, de Platão, o autor discute temas como os gêneros supremos e o entrelaçamento das ideias.
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A alma, como dýnamis ativa, tem uma relação puramente lógica e não implica uma alteração real. O estado ontológico das Ideias é o repouso, mas não um repouso que exclua essa relação lógica com a inteligência.

Há, pois, o ser como totalidade e, distinto do movimento e do repouso, inclui os dois, aliando o aspecto estático ao dinâmico do real numa síntese superior e, desse modo, salvando a possibilidade da ciência e a unidade de seu objeto. Resta agora inserir o não ser e o erro no discurso e fazer emergir o objeto da ciência, isto é, o Verdadeiro que se distingue da arte ilusionista do sofista.

Se não há nem mobilismo nem imobilismo universais, é preciso estabelecer se é possível a comunhão das Ideias para que a predicação permita uma forma diferente da tautológica. Há, portanto, três hipóteses:

­- Em primeiro lugar, se é impossível que as Ideias se associem, então nada possui com nada, possibilidade alguma de comunhão sob qualquer relação e, assim, o movimento e repouso não existiriam porque não poderiam participar do ser.

- Em segundo lugar, se tudo se associa com tudo então o próprio movimento se tornaria repouso e vice-versa.

Mas se há algo que se presta à mútua associação e algo que não se presta, significa que há uma razão ou ordenamento que permita ou regule tais associações. Por exemplo, as letras. Entre elas há acordo e desacordo. As vogais, que são diferentes das consoantes, são como um vínculo entre todas, impedindo que as consoantes se combinem sem elas. Também os tons, graves e agudos, têm que ter uma lei que permita a combinação harmoniosa. No caso das letras, quem tem a ciência e pode transmiti-la àqueles ainda afastados da verdade é o gramático. Para os tons, o músico. Em ambos, há uma competência técnica. Quem não tem tal conhecimento é leigo e incompetente.

Entretanto, a lei que permite as associações foi extraída da própria noção de participação comum do movimento e do repouso no âmbito do ser. Enquanto que cada uma dessas Ideias, em si mesma, se identifica, ao mesmo tempo, se diversifica com relação às outras duas. Surgem, pois, novas determinações ideais que expressam a identidade e a alteridade. É o aparecimento do “mesmo” e do “outro” como ideias (juntamente com o “ser”, como lei da mútua participação), que revelará a estrutura das proposições afirmativas e negativas.

Ainda que o mesmo e o outro sejam predicados, do movimento ou do repouso, não se identificam com eles. Também se distinguem do ser porque se o ser fosse identidade não haveria a distinção entre movimento e repouso; e se fosse pura alteridade, que é essencialmente relação, o ser compreenderia em si o absoluto (identidade consigo mesmo) e o relativo. Elas são, assim, Ideias distintas e subsistentes. Todas as Ideias participam da Ideia do “mesmo”, enquanto são idênticas a si mesmas. Por outro lado, a Ideia do “outro” invade todas as Ideias, estabelecendo entre elas a relação fundamental de alteridade, pela qual se distinguem.

O “ser”, o “mesmo” e o “outro” apresentam-se, então, como determinações ideais, necessárias e suficientes, que definem o estatuto ontológico de toda a Ideia. Juntos, eles formam a primeira e mais fundamental articulação da realidade inteligível, uma primeira conexão que qualquer Ideia implica, quando afirmada como substância ou enquanto participa da ordem do ser. No movimento há a participação à Ideia de ser e o ser do movimento desdobra-se numa nova relação de participação, que é a identidade consigo mesmo; mas porque essa identidade não é uma identidade com o ser como tal, implica, para o movimento, uma distinção de ser entre os seres. Enquanto distinto, cada ser (e, no caso, o movimento) é “outro” com respeito a todos os seres, dos quais distingue e é essa relação de alteridade, afirma Platão, que é uma relação real de “não ser”. Ela estabelece uma infinidade de não seres em relação ao ser, porém elimina o não ser como contrário do ser, que seria o nada eleático, o indizível, o impensável e se mostra como o “outro” do ser, de modo que o ser total apresenta-se como uma pluralidade ordenada e não como unidade indistinta. E a dialética, como ciência suprema, tem por objeto a comunhão ordenada das Ideias, discernindo no mundo ideal as unidades superiores e suas articulações naturais, de modo a conservar a cada forma sua identidade no interior das relações. Ela consiste na arte de bem dividir as unidades ideais complexas em simples, não tomando uma por outra, expressando essa relação num Lógos.

Se o lógos é a transcrição racional das Ideias, sua unidade é sempre, para Platão, uma unidade sintética. O lógos é proposição, é a relação mesma dos termos da proposição, que exprime a estrutura do real da forma e o dialético é o único capaz de divisar os nexos reais de inclusão, exclusão e dependência, que fazem do mundo das Ideias um mundo ordenado. Há dois processos para a realização da determinação da conexão, um ascendente e outro descendente. O primeiro refere-se à reunião e compreende “uma Ideia estendida completamente através de muitas outras, das quais cada uma permanece em si mesma isolada, e muitas outras que, distintas entre si, são envolvidas do exterior por uma Ideia única”. O segundo é a divisão que apreende “uma Ideia que, concentrada, embora em sua unidade, se estende por muitas totalidades, e uma pluralidade de Ideias totalmente isoladas”.

São esses os tipos de entrelaçamentos que a dialética deve discernir no mundo ideal e exprimir no discurso. O próprio fato da comunhão das Ideias, que se opõe à rígida unidade do ser eleático, é que torna possível o discurso. É ele que exprime um vínculo inteligível entre termos reais. Contudo, o lógos participa também do não ser, da relação de alteridade e o modo dessa participação pode distinguir nitidamente o discurso falso. O lógos nada mais é do que a expressão oral do discurso ou diálogo interior da alma consigo mesma, isto é, o pensamento. Este procede sempre pela expressão de uma relação entre as ideias, quer seja pela afirmação, quer seja pela negação, que constituem a qualidade própria do ato judicativo, da opinião. Assim, o discurso refere-se sempre à realidade das Ideias e, nesse sentido, exprime sempre uma “significação acerca do ser” e os elementos que, como signos do pensamento, mostram no discurso a comunhão das Ideias são os signos verbais que devem estar presentes em toda proposição: o nome e o verbo. O primeiro designa um sujeito; o segundo exprime uma ação, sempre qualificada do sujeito.

Dessa forma, o lógos, participando do ser, obedece à lei geral que faz o ser participar do “não ser” como “outro”. O seu ser é a expressão do ser real ou um ser de significação. Ele tem, na ordem da significação, a mesma amplitude que o ser real tem na ordem da existência. E dentro do âmbito do ser, o não ser de um determinado discurso não será qualquer outro ser real, mas deve ser necessariamente um “não ser de significação”, ou significação de um outro ser ─ outro discurso exprimindo um entrelaçamento diverso. O problema consiste em discernir na extensão do lógos o ser de significação, que é o objetivo da dialética, pondo em evidência o não ser de significação que caracteriza o discurso falso.

A verdade e a falsidade são qualidades de um lógos com relação a um entrelaçamento entre Ideias que ele exprime que, porém, têm valências ontológicas diferentes. O lógos verdadeiro é signo da dialética, isto é, da expressão intelectual do ser, ou seja, da Ideia, que sempre aparece inserida numa trama de relações reais, segundo os esquemas de classificação e divisão. É a Ideia do ser que, implicada em toda proposição dialética, lhe confere a “forma” e opera, assim, a unidade da ciência. E o filósofo é aquele que em seus raciocínios aplica continuamente a Ideia do ser, que participa de todas as Ideias e essa participação implica necessariamente uma relação de alteridade. É assim que a dialética afirma, ao mesmo tempo, o ser e o não ser em suas proposições. Tal é o discurso verdadeiro: o ser como ele é, isto é, traduz no discurso a densidade de ser e não ser, de identidade e alteridade, que define a estrutura real de cada ideia. Cada discurso determinado (cada proposição) exprime determinado ser numa conexão determinada. A posição do ser implica sempre as relações de identidade e alteridade, ou é regida sempre pelos princípios de permanência e distinção. O juízo que a exprime pode assumir tanto a forma positiva como a negativa. Esta exprime o não ser (alteridade) da coisa, e não o “não ser” do lógos porque seu ser é propriamente um ser de significação e o que constitui propriamente a essência do erro é que o “não ser de significação” é afirmado como ser. O discurso falso quer dar ao “outro” a significação do idêntico, e ao não ser a significação do ser. O não ser não está nos termos da proposição falsa; ele está no nexo, na conjunção arbitrária de dois termos e, desse modo, só o juízo pode ser falso.


Por João Francisco P. Cabral
Colaborador Brasil Escola
Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU
Mestrando em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP

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