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A caracterologia de Erich Fromm

Filosofia

A caracterologia de Erich Fromm parte de uma distinção entre caráter e temperamento para analisar as orientações do caráter social.
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Em sua obra “Análise do Homem”, o filósofo Erich Fromm defende o caráter como sendo a matéria da Ética, pois ao ser analisado como um todo oferece uma base para que se faça afirmações válidas sobre ações isoladas.

Ele defende a importância de se fazer a distinção entre caráter e temperamento para que não se atribua mais a diferença de valor à diferença de temperamento, pois isso já levou ao extermínio de pessoas e povos porque seus temperamentos predominantes divergiam daqueles que eram considerados adequados.

Personalidade é a totalidade de qualidades psíquicas herdadas e adquiridas que caracterizam um indivíduo e o torna original. Temperamento refere-se à maneira de reagir, que é inconstitucional e imutável. O caráter é essencialmente formado pelas experiências das pessoas, especialmente na infância, e modificável, até certo ponto, pelas novas experiências.

A caracterologia de Erich Fromm tem a sua base fundamental na relação pessoa-mundo, nos processos de assimilação e socialização. O sistema de caráter é a base de ajustamento do indivíduo à sociedade e pode ser o equivalente nos homens do instinto nos animais.

Podemos entender, assim, que a criança é modelada pelo caráter de seus pais. Os pais e seus métodos de educação são determinados pela estrutura social da cultura e, por isso, muitos membros de uma classe social ou cultura podem compartilhar elementos significativos do caráter. Em outras palavras, a criança adquire o caráter que a fará querer fazer aquilo que tem de fazer na sociedade em que está inserida.

Podemos entender o que Fromm chama de caráter social como um denominador comum entre as características intrínsecas ao indivíduo e sua cultura. O caráter social não deve ser compreendido como algo fixo e imutável, e sim como uma reação da pessoa às oportunidades e imposições externas que a sociedade oferece para a satisfação das necessidades existenciais.

Há também o caráter individual, aquilo que distingue a pessoa do resto dos membros da mesma cultura. O caráter individual decorre de diversos fatores: da personalidade dos pais, das suas diferenças físicas, psíquicas, materiais e de temperamento, por exemplo. Isso faz com que cada pessoa perceba o mundo de uma forma.

Fromm agrupa as orientações de caráter social a fim de explicá-las melhor. É importante ressaltar que o caráter de um indivíduo concreto é a mistura de algumas dessas orientações e a predominância de uma se deve, sobretudo, à cultura na qual o indivíduo vive. A primeira divisão que ele faz é entre aquelas que possuem orientação produtiva e aquelas que possuem orientação improdutiva.

Dentro das Orientações Improdutivas encontram-se a orientação receptiva, a orientação exploradora, a orientação acumulativa e a orientação mercantil. Vamos entender cada uma delas:

Na orientação receptiva, a pessoa acha que a “fonte de todo o bem” está fora de si mesma e crê que o único modo de obter o que quer é recebê-lo de uma fonte exterior. Ou seja, acha que não pode fazer nada sem ajuda e, por isso, espera que tudo seja feito pelos outros, diminuindo a participação da própria atividade.

Na orientação exploradora, assim como a receptiva, a premissa básica é a sensação de que a fonte de todo o bem está no exterior e que a própria pessoa nada pode produzir. Diferente da pessoa de orientação receptiva, a pessoa de orientação exploradora não espera receber coisas dos outros e sim tomá-las.

Na orientação acumulativa, gastar ou fazer são considerados uma ameaça e em suas relações com outros mostra-se inclinado à desconfiança. Do ponto de vista “imaterial”, a intimidade é uma ameaça; o alheamento ou a posse significam segurança. Vivem sempre no intuito de acumular o máximo e de gastar o mínimo, seja material ou sentimental.

A orientação mercantil, predominante na cultura “moderna”, Fromm analisa com mais cuidado. A pessoa de orientação mercantil tem a impressão de que ela própria é uma mercadoria e seu sucesso depende de saber vender suas capacidades, de saber impressionar. Sua autoestima depende do valor que lhe atribuem, por isso apresenta apenas sua parte vendável.

A premissa dessa orientação é a vacuidade, a ausência de qualquer qualidade específica que não seja mutável, pois qualquer traço imutável poderá entrar em choque com as exigências do mercado. É preciso sempre “estar na moda” no mercado de personalidades, é preciso se adequar ao tipo de personalidade que está sendo mais procurado.

As referências a esse tipo mais valorizado no momento (lembrando que Fromm escreveu esta obra na década de 1940) são encontradas nas mídias, como aponta o próprio autor: “as revistas, os jornais, os noticiários e o cinema mostram, com muitas variações, as descrições e imagens da vida dos que lograram sucesso” (p.68).

Ali está a receita de como se deve parecer e quais atitudes são desejáveis, caso queira conquistar dinheiro e poder. Esses modelos são equivalentes aos santos, mostrando concretamente as normas através do seu sucesso. Aquilo que diferencia as pessoas é seu preço de mercado e como as peculiaridades são sem valor, tornam-se sinônimo de esquisitices.

A inteligência é avaliada segundo os critérios de acumulação mental, não em termos de raciocínio crítico e compreensão. O que importa é acumular o máximo de conhecimento e o mais rápido possível, para atender às exigências de um mercado no qual o conhecimento tornou-se uma mercadoria e o pensamento é um instrumento para produzir resultados. Isso podemos perceber claramente nas experiências que temos em relação à educação: “Desde a escola primária até os cursos superiores, o objetivo da aprendizagem é reunir o máximo possível de informações que sejam sobretudo úteis” (p. 72).

Outra crítica de Fromm à modernidade aparece quando ele apresenta um contraponto aos diversos tipos de orientação improdutiva. Sua crítica é ao fato de que no século XX não há mais a preocupação em descrever um modelo de homem e sociedade bons, restringindo à sua crítica. A própria Psicanálise, segundo ele, analisou de maneira detalhada o caráter neurótico, “mas, o caráter de personalidade normal, madura e sadia, não foi levado em conta” (p. 77).

Ao fazer esse contraponto, em vez de analisar o caráter neurótico, ele pretende investigar a natureza do caráter completamente desenvolvido que sirva de modelo para o desenvolvimento humano, que seja o ideal da ética humanista.

A orientação produtiva da personalidade refere-se à capacidade do homem para usar suas forças e para realizar suas potencialidades, pois a produtividade para o autor não é senão a “realização, pelas potencialidades que o caracterizam, é o uso de seus poderes” (p. 81). O autor apresenta a diferença entre a produtividade e a atividade:

a) “uma pessoa pode ser ativa, sem ser seu verdadeiro ator” (p. 79), como por exemplo, quando se está hipnotizado;

b) uma atividade pode ser uma reação motivada por exigências;

c) a atividade pode ser submissa a uma autoridade;

d) a atividade pode ser a “atividade de autômato”, ou seja, pode estar submetida a uma autoridade anônima (opinião pública, padrões culturais, ciência etc.);

e) a atividade pode ser impelida por paixões irracionais.

Podemos entender a diferença entre produtividade e atividade da seguinte forma: mesmo que as atividades, como as que foram descritas acima, possam conduzir a pessoa ao sucesso material, isso não significa que ela tenha sido produtiva, já que estava agindo de maneira irracional e/ou submissa.

 

FROMM, Erich. A análise do homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1974

 

Por Wigvan Pereira
Graduado em Filosofia

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